Pela soberania alimentar – um pedido de reviravolta no sistema global de produção de comida.

“A Soberania Alimentar é o direito dos povos, das comunidades e dos países de definirem as suas próprias políticas agrícolas, pastorais, laborais, piscatórias, alimentares e territoriais, que se adeqúem às suas circunstâncias ecológicas, sociais, económicas e culturais. Inclui o direito genuíno à alimentação e à produção alimentar, o que significa que todas as pessoas possuem o direito a comida segura, nutritiva e culturalmente apropriada, aos recursos para produzir alimentos e ainda à capacidade de auto-sustentarem-se a si e as suas sociedades.”

in Declaração do Fórum para a Soberania Alimentar, Roma, Junho 2002

Nos dias 7 a 9 de Julho 2008, os oito países mais ricos do mundo vão reunir em Hokkaido, Japão, para discutir as actuais crises alimentar, petrolífera, climática e financeira.

Para eles chegou o momento mais propício de sempre para implementar o que a autora Naomi Klein intitulou ‘capitalismo do desastre’ (1) . Com o mundo incrédulo perante o colapso dos mercados, e com mão-cheia de argumentos cuidadosamente preparados e disseminados há meses, os representantes destes países e os seus aliados intergovernamentais, o Banco Mundial, o Instituto Financeiro Mundial e a Organização Mundial do Comércio, para além do lobby das grandes empresas transnacionais, vão insistir em replicar a receita que envenenou o planeta: mais liberalização do comércio, a eliminação de qualquer réstia de política de protecção do mercado interno por parte dos países em desenvolvimento, a promoção intensificada de fertilizantes e sementes industriais, a aceleração da incursão de organismos geneticamente modificados, a industrialização da agricultura africana e um pouco mais de ajuda alimentar como paliativo para a exclusão crónica dos mais pobres do sistema alimentar.

Os espantosos aumentos dos preços de cereais estão no entanto completamente dissociados dos problemas apontados pelos governantes e analistas: uma agricultura insuficientemente industrializada, o aumento da procura de comida em países em crescimento, as alterações climáticas, o aumento da população e mesmo a produção do etanol. A produção de cereais conheceu um recorde absoluto o ano passado (2), o suficiente para alimentar o mundo mais de duas vezes se distribuído equitativamente (3), os biocombustíveis, certamente uma ameaça a breve prazo, ainda só representaram 5% da produção de cereais em 2007 (4); a produção de carne consome de facto um terço dos cereais e monopoliza as terras agrícolas e a água, mas só tinha aumentado 3% (6) e a procura de cereais para consumo aumentou exactamente um porcento desde 2006 (6).

Os cereais estão mais caros não porque há mais bocas para alimentar, mas porque há mais dinheiro a competir por eles, em mercados de futuros onde se aposta numa escassez vaticinada. A crise alimentar é o resultado de políticas nefastas implementadas desde os anos setenta pelos países ricos e não de uma falta de produtividade: as pessoas morrem à fome não porque não há comida, mas porque não a podem pagar.

Os G8 e seus aliados instalaram um sistema de produção e distribuição alimentar de alcance global que deu primazia ao lucro sobre as necessidades humanas e correu milhões de produtores das suas terras, minou irremediavelmente a produtividade do solo enquanto envenenou o ar e a água e condenou perto de mil milhões de pessoas à fome crónica e malnutrição. Fez depender 70% (7) dos países em desenvolvimento das importações de produtos subsidiados do Norte, enquanto retirou o apoio às agriculturas locais, arrasando assim os mercados dos pequenos agricultores, favorecendo as monoculturas para exportação e eliminando eficazmente a auto-suficiência de dezenas de países na produção de comida. Ao abrigo dos acordos bilaterais e das políticas impostas em troca do saneamento da sua dívida, os países em desenvolvimento ficaram à mercê das empresas transnacionais, sendo as suas políticas agrícolas e tarifas aduaneiras completamente desmanteladas. A auto-suficiência foi substituída por um sistema verticalmente integrado de produção, distribuição e especulação de comida, inteiramente privatizado e patenteado e nas mãos de poucas dúzias de empresas gigantes.

A comida é demasiado crucial para ser uma comodidade sujeita à volatilidade do mercado liberalizado, tal como a agricultura é demasiado essencial à governância do nosso planeta para ser gerida como uma fábrica de produção em série.

Em solidariedade com La Via Campesina, com aquela metade do nosso mundo que vive na ruralidade, e em nome da humanidade, subscrevemos as seguintes medidas de inversão do rumo traçado pelos G8:

- Um regresso à independência e auto-suficiência dos povos em matéria de produção alimentar com o direito de determinarem as suas próprias politicas agrícolas.

- Uma nova governância das terras que inclui sobretudo os que as trabalham.

- O fim da dependência dos químicos, monoculturas e de sistemas de produção intensivos.

- A desprivatização dos recursos naturais como o solo, a água e as sementes, proibindo os assaltos ao solo fértil e à biodiversidade, a bio-pirataria e as patentes sobre as formas de vida.

- O fim das politicas intergovernamentais que entreguem o controlo sobre a agricultura a empresas transnacionais.

- O cancelamento imediato da obrigação de importar 5% do consumo interno e das cláusulas de acesso desprotegido aos mercados dos países em desenvolvimento.

- Retirar a negociação sobre a produção e distribuição alimentar do foro da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, regulamentando o comércio alimentar dentro de mecanismos internacionais genuinamente democráticos, respeitando a soberania alimentar de cada país.

- O fim da especulação em torno da comida.

O mundo seria capaz de se alimentar a si próprio desde que as políticas alimentares e agrícolas se baseassem em factos e não em mitos. Chegou o momento dos países mais ricos assumirem a responsabilidade pela crise que geraram. Chegou o momento da soberania alimentar.

(1) Naomi Klein, The Shock Doctrine”, 2007

(2) FAO, Abril 2008

(3) How we could feed the world World Socialist Movement, 2006

(4) FAO, Abril 2008

(5) World Watch Institute

(6) FAO, Abril 2008

(7) Katarina Wahlberg, “Are we approaching a global food crisis?”, World Economy & Development in Brief, Global Policy Forum, 3 March 2008

outras fontes:

FAO, World Food Situation

“Getting out of the food crisis’- Revista GRAIN, Maio 2008

“Making a killing from hunger” – Revista Grain, Abril 2008

Unnatural roots of the food crisis – Gonçalo Oviedo in BBC news, Junho 2008

A response to the Global Food Prices Crisis: Sustainable family farming can feed the world.”- La Vía Campesina, Fevereiro 2008

FOOD CRISIS (Part Two): Capitalism, Agribusiness, and the Food Sovereignty Alternative - Ian Angus in Socialist Voice, Maio 2008

“Food Aid or Food Sovereignty? Ending World Hunger in Our Time” - Frederic Mousseau, Oakland Institute, 2005

Mere sticking plasters - Kevin Watkins, The Guardian, 2 Junho 2008

Sites

Petição da 350.org: G8 e o combate às alterações climáticas

La Via Campesina

Declaração de Nyéléni – Foro Mundial pela Soberania Alimentar, 2007

Site Nyéléni

Naomi Klein

Earth First

AVAAZ

On the Commons

Food&Water Watch

Vídeo BBC World Debate: Food, who is paying the price?

Pobreza Zero

WiserEarth

Sustainable Table

Friends of the Earth

George Monbiot

Alliance for a responsible, plural and united world

FAO: World Food Situation

Artigos

“Getting out of the food crisis’- Revista GRAIN, Maio 2008

“Making a killing from hunger” – Revista Grain, Abril 2008

Unnatural roots of the food crisis – Gonçalo Oviedo in BBC news, Junho 2008

A response to the Global Food Prices Crisis: Sustainable family farming can feed the world.”- La Vía Campesina, Fevereiro 2008

FOOD CRISIS (Part Two): Capitalism, Agribusiness, and the Food Sovereignty Alternative - Ian Angus in Socialist Voice, Maio 2008

“Food Aid or Food Sovereignty? Ending World Hunger in Our Time” - Frederic Mousseau, Oakland Institute, 2005

Mere sticking plasters - Kevin Watkins, The Guardian, 2 Junho 2008

“How we could feed the world – World Socialist Movement, 2006

“Are organic crops as productive as conventional?” – physorg.com, Março 2008

FAO report reveals GM crops not needed to feed the world

It is a myth that world hunger is due to scarcity of food – Danielle Knight, 2005

“Food Sovereignty: turning the global food system upside down” - Revista GRAIN, Maio 2008

Can Organic Farming Feed Us All? – WorldWatch Institute, 2006

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